Porque sabemos o que fazer… mas fazemos o contrário?
Atualizado: há 2 dias
Podemos saber que somos capazes e sentir que não temos o direito de o reconhecer.
Ter provas da nossa inteligência, da nossa competência, até da nossa beleza — e, ainda assim, sentir um desconforto profundo quando admitimos essas qualidades. Como se reconhecer alguma coisa boa em nós fosse uma falta. Uma vaidade. Quase uma ofensa.
Esta possibilidade interessa-me muito: como pode o cérebro conhecer uma coisa e responder como se ela não fosse verdade?
Talvez porque saber não seja o mesmo que sentir. E porque aquilo que aprendemos sobre nós não se constrói apenas através de factos.
Quando reconhecer o nosso valor parece errado
Imaginemos alguém que cresceu com pouco espaço para as suas necessidades. Pedir era excessivo. Querer atenção era incomodar. Mostrar satisfação consigo própria podia ser recebido como vaidade ou arrogância.
Anos mais tarde, essa pessoa pode reconhecer as suas capacidades. Estudou, trabalhou, ultrapassou dificuldades. Tem razões concretas para confiar em si.
Mas basta ouvir «achas-te muito boa» para surgir uma dor que parece desproporcionada à frase.
O que realmente aconteceu?
Talvez a frase tenha encontrado uma aprendizagem antiga: reconhecer o meu valor põe alguma coisa em risco. Posso ser criticada, envergonhada ou perder a aprovação de alguém importante.
Esta é uma hipótese para compreender a situação, não uma conclusão que possamos tirar apenas por observar uma reação. Mas permite ver a questão com outra profundidade.
A pessoa sabe que é capaz. O que lhe custa é sentir que pode sê-lo sem culpa.
O cérebro aprende mais do que aquilo que conseguimos explicar
Na infância, aprendemos palavras, regras e conhecimentos. Aprendemos também o que acontece quando pedimos, quando nos mostramos, quando precisamos de alguém.
Uma criança pode ouvir «tens valor» e encontrar pouco espaço para aquilo que sente. Pode ser elogiada pelos resultados e criticada quando expressa uma necessidade.
Que aprendizagem se constrói nesse encontro?
Interessa-me esta pergunta porque o cérebro se desenvolve enquanto vive essas experiências. As capacidades de ponderar, travar uma resposta e considerar alternativas amadurecem ao longo da infância e da adolescência. Entretanto, a criança já está a aprender a responder ao ambiente.
Não precisa de formular «é perigoso reconhecer o meu valor» para começar a conter-se. Essa pode ser a explicação que encontra muitos anos depois para uma resposta que já conhece há muito.
O cérebro sabe mais do que aquilo que temos consciência de saber: há aprendizagens que se revelam na forma como respondemos, mesmo quando ainda não conseguimos pô-las em palavras.
A maturação não apaga a aprendizagem
Mais tarde, o desenvolvimento das redes em que participa o córtex pré-frontal amplia a capacidade de refletir, planear e regular o comportamento. Mas não significa que todas as respostas anteriores sejam substituídas.
Não chegamos à idade adulta deixando para trás tudo o que aprendemos antes. As novas capacidades desenvolvem-se num cérebro que já tem uma história.
É possível compreender «tenho direito a gostar de mim» e continuar a sentir um aperto quando alguém interpreta essa satisfação como vaidade.
É aqui que pode parecer haver dois em nós: quem compreende e quem reage.
Não são dois cérebros separados. São processos que coexistem e interagem, sem que o conhecimento consciente consiga sempre orientar toda a resposta. Uma aprendizagem antiga pode continuar a pesar, mesmo quando já temos razões para responder de outra maneira.
Quando o cérebro continua a antecipar perigo
A investigação sobre medo aprendido ajuda a tornar esta ideia mais concreta.
Imagina uma experiência em que um som é repetidamente seguido de um pequeno choque elétrico desagradável. Ao fim de algum tempo, o som, por si só, começa a provocar uma resposta de alerta: o organismo aprendeu a antecipar o que vinha a seguir.
Depois, o som é apresentado várias vezes sem choque. A resposta de alerta diminui. O som começa a ser associado a uma experiência diferente: pode ser ouvido sem acontecer nada desagradável.
Mas essa nova aprendizagem nem sempre elimina a anterior. Em estudos deste tipo, a resposta pode voltar a aparecer em determinadas condições...
O que parecia ter deixado de causar medo pode voltar a despertar alerta. Apesar de conscientemente se ter estabelecido que o som, por exemplo, não representa de todo perigo.
Este exemplo ajuda-nos a perceber a diferença entre uma resposta que diminuiu e uma aprendizagem que foi apagada. Também nos convida a investigar algo que reconhecemos na vida: podemos considerar uma situação segura e, ainda assim, sentir dificuldade em vivê-la dessa forma.
Não significa que exista um «cérebro inconsciente» separado de nós. Significa que nem todos os processos envolvidos numa resposta estão acessíveis à reflexão, e que compreender uma situação não garante o controlo imediato do que sentimos.
O laboratório não explica toda uma história de vida. Torna, porém, mais visível a possibilidade de uma aprendizagem antiga continuar a ter impacto depois de termos aprendido algo diferente...por vezes, contrário.
Voltando à pessoa que sente culpa ao reconhecer o próprio valor: ter vivido situações em que foi apreciada pode não impedir que uma crítica volte a despertar aquela resposta dolorosa. As novas experiências podem ter sido importantes sem terem eliminado todas as respostas anteriores.
Saber que sou capaz... e sentir que posso sê-lo
A dificuldade pode não estar na ausência de provas. Mais uma conquista, mais um elogio ou mais uma explicação talvez não resolvam aquilo que dói.
Porque a pergunta não é apenas «sou capaz?».
Pode ser: «Tenho o direito de reconhecer que sou capaz? Posso gostar de mim sem ser castigada por isso?»
Esta diferença muda o que procuramos compreender. O conhecimento sobre as próprias capacidades está presente. O que parece faltar é uma experiência suficientemente familiar de poder reconhecê-las com segurança.
É nesta distância que o cérebro ganha lugar central no meu olhar: interessa-me como uma aprendizagem participa no que sentimos hoje, mesmo quando conseguimos pensar de outra forma.
António Damásio descreve-nos como seres emocionais que pensam: feeling machines that think. Esta formulação lembra-nos que o pensamento acontece num organismo que atribui valor ao que vive. O que sentimos participa no que pensamos, mesmo quando pensamento e sentimento parecem apontar em direções opostas.
Nos seus estudos com Antoine Bechara, algumas pessoas com lesões pré-frontais conseguiam reconhecer uma estratégia vantajosa e continuavam a fazer escolhas prejudiciais. O conhecimento estava presente, mas não bastava para orientar a ação.
Esses resultados mostram que compreender e conseguir agir de acordo com essa compreensão são capacidades que podem estar separadas.
Por isso, quando alguém diz «eu sei, mas não consigo», há mais para investigar do que a força de vontade.
Às vezes, o que sabemos hoje ainda não encontrou lugar na forma como aprendemos a sentir-nos. Há respostas automáticas cuja história precisamos de compreender, incluindo o que as mantém no presente.
Como se constrói esse lugar? Como pode o cérebro aprender que aquilo que antes parecia proibido: precisar, pedir, reconhecer valor em si, pode agora ser vivido de outra maneira?
É dessa pergunta que nasce o próximo artigo.


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